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Como fazer uma avaliação antropométrica: medidas, técnica e valores de referência

Guia de avaliação antropométrica para nutricionistas: peso, estatura, IMC, circunferências, dobras cutâneas, RCQ e RCEst, com técnica e referências.

Por Verónica Carvalho

Nutricionista medindo a circunferência da cintura de um paciente com fita métrica

A antropometria é provavelmente a ferramenta mais usada no consultório e, ao mesmo tempo, uma das que mais acumulam erros. Uma fita posicionada dois centímetros acima ou uma dobra pinçada com pressa podem fazer o paciente parecer que "melhorou" ou "piorou" sem que nada tenha mudado de fato.

Neste guia revisamos o que medir, como medir com boa técnica e como interpretar cada medida com valores de referência reconhecidos.

Antes de medir: condições e material

As medidas só são comparáveis se forem feitas sempre em condições parecidas:

  • Mesmo horário, de preferência pela manhã e com a bexiga vazia.
  • Roupas leves e sem calçados.
  • Sem exercício intenso nas horas anteriores.
  • Mesmo equipamento e, se possível, o mesmo avaliador.
  • Registre cada medida duas ou três vezes e use a média (ou a mediana, se forem três).

Material básico: balança calibrada, estadiômetro, fita métrica inextensível e, para dobras, um adipômetro de qualidade. A ISAK (International Society for the Advancement of Kinanthropometry) oferece protocolos e certificação para quem quer padronizar a técnica.

Peso e estatura

Peso: paciente no centro da balança, ereto, sem se apoiar, com o peso distribuído entre os dois pés.

Estatura: de costas para o estadiômetro, calcanhares juntos, glúteos e costas encostados na superfície e cabeça no plano de Frankfurt (linha imaginária da borda inferior da órbita ao meato auditivo, na horizontal). Peça uma inspiração profunda e desça o cursor até o vértex.

Índice de massa corporal (IMC)

IMC = peso (kg) / estatura (m)²

Classificação da OMS para adultos:

IMC (kg/m²)Classificação
< 18,5Baixo peso
18,5–24,9Eutrofia
25,0–29,9Sobrepeso
30,0–34,9Obesidade grau I
35,0–39,9Obesidade grau II
≥ 40,0Obesidade grau III

Limitações que você precisa ter em mente:

  • Não distingue massa gorda de massa muscular: um atleta pode ter IMC de "sobrepeso" com pouca gordura.
  • Não informa a distribuição da gordura.
  • Para populações asiáticas, uma consulta de especialistas da OMS (2004) apontou que o risco aumenta em valores mais baixos.
  • Em idosos, o Brasil costuma usar outros pontos de corte: o SISVAN adota a classificação de Lipschitz (baixo peso < 22; eutrofia 22–27; sobrepeso > 27 kg/m²).

Por isso o IMC é uma boa triagem, mas nunca deveria ser a única medida.

Circunferências

Ilustração dos pontos anatômicos para medir a circunferência da cintura, a circunferência do quadril e as dobras tricipital, bicipital, subescapular e suprailíaca

Cintura

Pelo protocolo STEPS da OMS, mede-se no ponto médio entre a borda inferior da última costela palpável e a parte superior da crista ilíaca, ao final de uma expiração normal, com a fita na horizontal e sem comprimir a pele. Outros protocolos usam a menor circunferência ou a altura do umbigo: escolha um e mantenha sempre o mesmo.

Pontos de corte da OMS (população europeia) para risco metabólico:

Risco aumentadoRisco muito aumentado
Homens≥ 94 cm≥ 102 cm
Mulheres≥ 80 cm≥ 88 cm

A Federação Internacional de Diabetes (IDF) propõe pontos de corte conforme a origem étnica; para populações da América Central e do Sul, sugere usar, enquanto não houver dados próprios, os valores da população do sul da Ásia: ≥ 90 cm para homens e ≥ 80 cm para mulheres.

Quadril

Medido na maior protuberância dos glúteos, com o paciente em pé, pés juntos e fita na horizontal.

Braço e panturrilha

  • Circunferência do braço: no ponto médio entre o acrômio e o olécrano, com o braço relaxado. Útil para avaliar reservas proteicas e energéticas, principalmente em contexto clínico.
  • Circunferência da panturrilha: na parte de maior diâmetro. Em idosos, valores abaixo de 31 cm são usados em ferramentas como a MAN (Mini Avaliação Nutricional) como sinal de risco nutricional.

Índices derivados

Relação cintura-quadril (RCQ)

RCQ = cintura (cm) / quadril (cm)

A consulta de especialistas da OMS (2008) considera risco metabólico muito aumentado com RCQ ≥ 0,90 em homens e ≥ 0,85 em mulheres.

Relação cintura-estatura (RCEst)

RCEst = cintura (cm) / estatura (cm)

Um valor ≥ 0,5 se associa a maior risco cardiometabólico. A metanálise de Ashwell e colaboradores (Obesity Reviews, 2012) mostrou que a RCEst discrimina o risco melhor do que a circunferência da cintura e o IMC. E ainda traz uma mensagem fácil para o paciente: "mantenha a cintura abaixo da metade da sua altura".

Tabela visual em formato de semáforo com os pontos de corte de IMC, circunferência da cintura, relação cintura-quadril e relação cintura-estatura

Dobras cutâneas

As dobras estimam a gordura subcutânea e, por meio de equações, o percentual de gordura corporal. São baratas e úteis, mas muito dependentes da técnica.

Técnica básica

  1. Meça no lado direito do corpo (convenção ISAK).
  2. Marque o ponto anatômico com precisão antes de pinçar.
  3. Destaque a dobra com o polegar e o indicador, separando-a do músculo.
  4. Posicione o adipômetro a um centímetro dos dedos e faça a leitura em cerca de dois segundos.
  5. Faça pelo menos duas séries e repita se a diferença for grande.

Dobras mais usadas

  • Tricipital: face posterior do braço, no ponto médio acromial-radial.
  • Bicipital: face anterior do braço, na mesma altura.
  • Subescapular: abaixo do ângulo inferior da escápula, em diagonal.
  • Suprailíaca / crista ilíaca: acima da crista ilíaca, na linha axilar média ou conforme o protocolo usado.
  • Outras: abdominal, coxa e panturrilha medial, conforme a equação escolhida.

Das dobras ao % de gordura

A equação de Durnin e Womersley (1974) usa a soma de quatro dobras (bicipital, tricipital, subescapular e suprailíaca) para estimar a densidade corporal, com coeficientes por sexo e idade. Depois, a equação de Siri converte a densidade em percentual de gordura:

% gordura = (495 / densidade) − 450

Outra opção muito usada são as equações de Jackson e Pollock. Duas dicas: use uma equação validada para uma população parecida com a do seu paciente e não troque de equação entre as avaliações. No acompanhamento, a soma das dobras em milímetros costuma ser mais confiável do que o percentual estimado.

Bioimpedância: um complemento

A bioimpedância é rápida e prática, mas os resultados variam com a hidratação, a alimentação recente, o exercício e o ciclo menstrual. Se usar, padronize o protocolo e combine os dados com as medidas antropométricas.

Interpretar em conjunto e registrar bem

Nenhuma medida isolada fecha diagnóstico. Uma boa avaliação combina:

  • IMC para classificar.
  • Cintura e RCEst para o risco cardiometabólico.
  • Dobras ou bioimpedância para a composição corporal.
  • A evolução ao longo do tempo, que costuma dizer mais do que um valor pontual.

Esses dados são a base para calcular o gasto energético e montar o plano alimentar.

No Refeit você registra peso, estatura, circunferências e dobras na ficha do paciente, e índices como IMC e relação cintura-quadril são calculados automaticamente. Também dá para mostrar ao paciente gráficos da evolução a cada retorno, algo que costuma motivar muito mais do que um número solto.

Fontes

#antropometría#IMC#circunferencia de cintura#pliegues cutáneos#índice cintura-talla#composición corporal

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