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·6 min de leitura

Harris-Benedict vs Mifflin-St Jeor vs FAO/OMS: qual equação de gasto energético usar

Equações de Harris-Benedict, Mifflin-St Jeor e FAO/OMS com os coeficientes corretos, um exemplo resolvido e critérios para escolher a melhor.

Por Verónica Carvalho

Comparação das equações de gasto energético Harris-Benedict, Mifflin-St Jeor e FAO/OMS

Pergunte em qualquer grupo de nutricionistas qual equação eles usam para estimar o gasto energético e você vai ouvir pelo menos três respostas: Harris-Benedict, Mifflin-St Jeor e FAO/OMS. Todas são válidas no seu contexto, mas não chegam ao mesmo resultado nem foram criadas a partir da mesma população.

Neste artigo revisamos cada equação com os coeficientes corretos, resolvemos o mesmo caso com todas elas e mostramos critérios práticos para escolher.

Antes de tudo: TMB, TMR e GET

Vale alinhar o que cada equação estima:

  • Taxa metabólica basal (TMB): energia mínima em repouso absoluto, em jejum, sob condições de laboratório bem controladas.
  • Taxa metabólica de repouso (TMR): parecida, mas medida em condições menos rígidas; na prática costuma ser um pouco maior que a basal.
  • Gasto energético total (GET): soma do gasto de repouso, do efeito térmico dos alimentos e da atividade física.

Em uma pessoa sedentária, o gasto de repouso costuma responder pela maior parte do total (cerca de dois terços), o efeito térmico dos alimentos por algo perto de 10% e o restante pela atividade física, o componente mais variável.

Esquema do gasto energético total dividido em gasto de repouso, efeito térmico dos alimentos e atividade física

As equações a seguir estimam o gasto basal ou de repouso. Para chegar ao total, multiplica-se o resultado por um fator de atividade.

Equação de Harris-Benedict

Publicada em 1918-1919 por J. Arthur Harris e Francis G. Benedict, com medições de 239 adultos norte-americanos. É a mais antiga e, por décadas, foi a mais usada.

Equação original (peso em kg, estatura em cm, idade em anos, resultado em kcal/dia):

  • Homens: 66,473 + (13,7516 × peso) + (5,0033 × estatura) − (6,755 × idade)
  • Mulheres: 655,0955 + (9,5634 × peso) + (1,8496 × estatura) − (4,6756 × idade)

Em 1984, Roza e Shizgal recalcularam os coeficientes com os dados originais somados a novos:

  • Homens: 88,362 + (13,397 × peso) + (4,799 × estatura) − (5,677 × idade)
  • Mulheres: 447,593 + (9,247 × peso) + (3,098 × estatura) − (4,330 × idade)

Atenção: na população atual ela tende a superestimar o gasto de repouso, principalmente em pessoas com obesidade, porque a amostra original era jovem, magra e pouco diversa.

Equação de Mifflin-St Jeor

Desenvolvida em 1990 por Mifflin, St Jeor e colaboradores com 498 adultos saudáveis, incluindo pessoas eutróficas e com obesidade:

  • Homens: (10 × peso) + (6,25 × estatura) − (5 × idade) + 5
  • Mulheres: (10 × peso) + (6,25 × estatura) − (5 × idade) − 161

É fácil de memorizar e, na revisão sistemática de Frankenfield e colaboradores (2005), foi a equação que mais vezes acertou o gasto de repouso dentro de ±10% do valor medido por calorimetria, tanto em adultos sem obesidade quanto com obesidade. Por isso muitas diretrizes a indicam como primeira opção para adultos saudáveis quando não é possível medir.

Equações FAO/OMS/UNU

Em 1985, o relatório conjunto FAO/OMS/UNU (Série de Relatórios Técnicos 724) adotou equações baseadas no trabalho de Schofield, construídas a partir de uma base de dados bem maior. Elas usam apenas o peso e mudam conforme a faixa etária:

Idade (anos)Homens (kcal/dia)Mulheres (kcal/dia)
18–3015,3 × peso + 67914,7 × peso + 496
30–6011,6 × peso + 8798,7 × peso + 829
> 6013,5 × peso + 48710,5 × peso + 596

O relatório de 2004 (Human energy requirements) manteve a lógica de equações por idade e sexo, com coeficientes levemente atualizados. Consulte a tabela desse documento se quiser usar a versão mais recente.

Vantagem: útil em saúde pública, para grupos e quando você não tem a estatura. Limitação: a base original tinha muitos homens jovens europeus, e alguns estudos encontraram superestimação em populações de regiões tropicais.

Um caso, quatro resultados

Vamos usar uma mulher de 35 anos, 65 kg e 165 cm:

EquaçãoGasto de repouso estimado
Harris-Benedict original≈ 1.418 kcal/dia
Harris-Benedict (Roza e Shizgal)≈ 1.408 kcal/dia
FAO/OMS/UNU 1985 (30–60 anos)≈ 1.395 kcal/dia
Mifflin-St Jeor≈ 1.345 kcal/dia

Gráfico de barras comparando o gasto de repouso estimado por cada equação para uma mulher de 35 anos, 65 kg e 165 cm

Aqui a diferença entre a maior e a menor estimativa é de cerca de 70 kcal. Parece pouco, mas cresce quando multiplicada pelo fator de atividade, e em pacientes com obesidade a distância entre as equações pode ser bem maior.

Esta calculadora usa Mifflin-St Jeor e o fator de atividade que você escolher; experimente mudar os dados:

Calculadora de necessidade calórica

Gasto energético total estimado pela equação de Mifflin-St Jeor.

Sexo

Metabolismo basal

1345 kcal

Necessidade diária

2085 kcal

Para perder peso (−20 %): 1668 kcal · Para ganhar peso (+10 %): 2294 kcal

É uma estimativa de referência: o plano final é ajustado por um profissional conforme a evolução do paciente.

Do gasto de repouso ao gasto total

Para estimar o gasto total, multiplica-se o gasto de repouso por um nível de atividade física (NAF ou PAL). O relatório FAO/OMS/UNU de 2004 propõe estas faixas para adultos:

Estilo de vidaNAF
Sedentário ou atividade leve1,40–1,69
Ativo ou moderadamente ativo1,70–1,99
Vigoroso ou muito ativo2,00–2,40

Na prática clínica também são muito usados fatores de 1,2 (sedentário) a 1,9 (muito ativo). Qualquer que seja a escala, seja coerente e registre qual usou.

Afinal, qual usar?

Não existe equação perfeita, mas existem critérios razoáveis:

  • Adultos saudáveis, com ou sem sobrepeso, no consultório: Mifflin-St Jeor como primeira escolha.
  • Grupos, planejamento populacional ou sem a estatura: FAO/OMS/UNU.
  • Comparar com registros antigos ou protocolos que exigem: Harris-Benedict, sabendo que tende a dar valores mais altos.
  • Atletas ou pessoas com muita massa muscular: considere equações baseadas em massa livre de gordura, como Katch-McArdle (370 + 21,6 × massa livre de gordura em kg), se tiver uma boa estimativa da composição corporal.
  • Pacientes hospitalizados, críticos, com doença renal avançada, amputações ou extremos de peso: as equações gerais perdem precisão. O ideal é a calorimetria indireta e as diretrizes específicas (por exemplo, ESPEN, ASPEN ou BRASPEN).

E guarde a regra de ouro: a equação é a hipótese; a evolução do peso é a prova. Se depois de 2–4 semanas de boa adesão o peso não se comportar como o esperado, ajuste.

Erros frequentes

  • Usar o peso atual em pacientes com obesidade grave sem avaliar se o protocolo do seu serviço pede peso ajustado.
  • Aplicar um fator de atividade alto e ainda somar as calorias do exercício: é contar a atividade duas vezes.
  • Esquecer que a faixa etária muda nas equações FAO/OMS.
  • Arredondar coeficientes de memória: um "655" aplicado à equação revisada muda o resultado.

Calcular sem erros de digitação

Quem faz essas contas à mão ou em planilha sabe como é fácil trocar um coeficiente. No Refeit as equações já vêm programadas: você escolhe a fórmula e o nível de atividade e o gasto estimado aparece direto na ficha do paciente, pronto para seguir para a distribuição de macronutrientes e o plano alimentar.

Fontes

#gasto energético#Harris-Benedict#Mifflin-St Jeor#FAO/OMS#metabolismo basal#calorías

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